As críticas à nomeação de Franklin Alves, são só por si uma injustiça e uma imoralidade
A nomeação de Franklin Alves como secretário de estado do empreendedorismo, demonstra o quan histérica, e mais grafe do que isso, estéril está a nossa opinião pública. Das dezenas de reacções e comentários que li e ouvi, uns mais fundamentados do que outros, ninguém pôs em causa a seriedade do recém empossado secretário de estado, mas mesmo assim acharam que esta nomeação tratou-se de um erro político. Inclusive, alguns comentadores até fizeram questão de dizer que Franklin Alves é um homem sério, e não tem nada haver com a fraude do Bpn, que como todos sabem é a maior burla económico/financeira da nossa história, suplantando largamente o caso das notas falsas de Alves dos Reis. Confesso que este tipo de reacções chocam-me. Não porque eu tenho alguma coisa a favor em relação a este governo e ao secretário de estado. Sobre este, nem tenho nada a favor nem contra. Sei que ele esteve na sociedade luza de negócios seis meses antes de rebentar o escândalo, o que só por isso nada me diz, uma vez que este caso foi denunciado muito tempo antes, concretamente em 2002, pelo jornalista Camilo Lourenço. Sabendo que, este facto só por si não isenta Franklin Alves de quaisquer responsabilidades, e tendo em conta que até agora ninguém ousou lançar sequer uma suspeita concreta, quanto mais uma acusação, não entendo como é que se pode dizer que ele não deve ser secretário de estado, só porque esteve ligado à slm. Esta posição é altamente imoral, e merece ser repudiada porque, podem chamar-me ingénuo, mas eu ainda acredito em valores de justiça e de verdade. Um dos provérbios mais citados pelos comentadores, foi o de que “à mulher de César não basta ser séria, é preciso parecê-lo”. É caso para dizer que estão a evocar um provérbio em vão! Porque neste caso pelos dados que são conhecidos, nem sequer as aparências me levam a concluir que há algo de errado nesta história. Se ao menos houvesse alguma suspeita que recaísse sobre ele, se houvesse um dado concreto que pudesse beliscar a sua actuação e pôr em causa a sua honorabilidade, eu era claramente favorável a que uma pessoa destas não fosse membro do governo do meu país. Agora quando não há nada de concreto nem suspeito, que direito e moral temos nós de assassinar politicamente alguém que repito, pelo que se conhece actualmente apenas cometeu o erro de estar no sítio errado à hora errada? quantos de nós já não fizemos parte de equipas falhadas, de projectos que se vieram a revelar um fracasso? E gostávamos que nos viessem apontar culpas e responsabilidades que manifestamente não tivemos? O que eu noto, e digo isto com muita tristeza é que a nossa opinião pública está cada vez mais infantilizada e sensacionalista, e a médio prazo isto pode ter efeitos mais nefastos do que a própria crise. Porque se continuarmos a ter uma opinião pública desgarrada, irresponsável, que analisem as coisas ao sabor do momento, contribuindo para que não se formem mentes esclarecidas e lúcidas, vamos tornar-nos um país de eleitores levianos e irresponsáveis. E honestamente eu não posso pactuar com isto, e tenho de dizer, que independentemente de todos nós ficarmos com náuseas quando se fala do Bpn, mesmo sabendo que isto é uma das maiores senão a maior vergonha do nosso estado de direito, devemos ter a lucidez para separar o trigo do joio. E dizer-se que o senhor até é sério e que nada tem haver com o assunto, e ao mesmo tempo defender que ele deve ser prejudicado na sua carreira, é injusto, imoral, e é também perigoso, porque Dora avante, se vamos escrutinar os ministros e secretários de estado com base no parecer e não no ser, corremos o risco de excluir alguém só porque é feio, ou não está dentro dos padrões que a sociedade civil está à espera. E esta ambiguidade, fere o nosso estado de direito, que deixa de ser ele mesmo um estado de direito, e passa a ser um estado ao sabor das aparências, e da forma como cada um as encara.
Sem comentários:
Enviar um comentário