A minha discordância sobre o comunicado da ERC que acusa a Rtp de mediatizar conferida a Carlos Cruz
Esta semana, a ERC (entidade reguladora para a comunicação social), emitiu um comunicado criticando os media, mas em particular a RTP, por aquilo que descreve como “mediatização” conferida a Carlos Cruz no seguimento da leitura da sentença do processo Casa Pia.
A entidade está contra o facto de a RTP ter concedido uma série de entrevistas a Carlos Cruz.
Na verdade discordo frontalmente contra esta crítica da ERC.
Sabemos que este processo desperta imensas paixões na sociedade portuguesa. Independentemente das convicções que cada um de nós tenha sobre o caso, temos de tentar posicionarmo-nos com alguma frieza, racionalidade e se possível distanciamento.
Este comunicado é no meu ponto de vista pouco rigoroso, e aponta uma crítica injusta à RTP.
No programa prós e contras intervieram vários agentes do processo. Recordo a esse respeito que um dos convidados foi o Bernardo Teixeira, uma das vítimas que deu a cara desde o início do julgamento, Adelino Granja, um dos advogados que esteve envolvido no processo, com o caso Joel, que foi aliás a primeira queixa relativa a actos de pedofilia na Casa Pia, e naturalmente Carlos Cruz.
Segundo Fátima Campos Ferreira, foram convidados mais envolvidos no processo, que no entretanto acharam por bem declinar o convite.
Creio portanto que estamos perante uma igualdade de tratamentos, simplesmente temos uma diferença de actuação entre Carlos Cruz e os restantes arguidos. Se o primeiro entende que a melhor maneira de defender aquilo que ele considera ser a sua inocência é expor-se mediaticamente, os restantes entendem que a melhor maneira é resguardarem-se mais.
Estamos a falar de opções de cada um, de questões que têm haver com a concepção e o estilo de cada arguido.
Se a apresentadora do Prós e contras afirma que foram convidados mais agentes do processo, e que eles recusaram o convite, eu tenho é de acreditar na sua palavra.
No especial informação, que foi para o ar logo no dia da leitura da súmula do acordam, apesar de não ter acompanhado um minuto que seja do programa, creio que estiveram também partes envolvidas no processo, designadamente o advogado das vítimas. Penso que aí também tivemos igualdade de tratamentos.
Relativamente à grande entrevista, trata-se de uma situação natural. Recordo que já vários actores da nossa sociedade foram entrevistados nestas circunstâncias e noutras similares. Dias Loureiro foi entrevistado imediatamente quando rebentou o caso BPN, Isaltino Morais também já foi entrevistado quando estava a decorrer um processo em tribunal, que aliás também acabou por o condenar, Valentim Loureiro também deu uma entrevista durante o decurso do processo apito dourado, e mais recentemente Duarte Lima, é verdade que não é ainda suspeito nem muito menos arguido, mas também lhe foi concedida a entrevista para de certa forma se tentar justificar na opinião pública.
em suma, uma série de casos que no meu ponto de vista fazem com que seja manifestamente exagerado dizer-se que à uma super protecção ao Carlos Cruz, e que isso tem haver com a carreira que ele fez na televisão pública.
Eu concordo com este tipo de entrevistas. Estamos a falar de homens e mulheres, que tentam usar as armas que têm para fazerem passar a sua ideia. Humanamente é perfeitamente compreensível.
Mas temos ainda outros dados importantes, e que não devem ser esquecidos.
Como todos têm conhecimento, este processo despoletou na imprensa em 2002.
Nessa altura, já Carlos Cruz e outras vítimas foram referidas abundantemente na comunicação social, sem direito sequer de defesa. Foram manchetes e manchetes, reportagens atrás de reportagens, notícias atrás de notícias. Lamento que nessa altura, a ERC não tenha tido a preocupação de proteger alguém que apenas era suspeito, nem sequer era arguido nem muito menos condenado.
É lamentável que agora se venham manifestar pela quilo que segundo eles é o excessivo mediatismo que se dá aos condenados, quando durante 8 anos, eles foram atacados sem dó nem piedade por uma comunicação social com fome de sangue e de informação sensacionalista.
É perfeitamente legítimo, que depois de todos estes anos, em que as pessoas tiveram de estar caladas porque os juízes assim o ordenaram, venham agora, que já foi lida a sentença, e que em consequência desse facto não têm qualquer restrição de expressão, darem a sua versão dos factos.
É compreensível. Já tivemos anos e anos em que a única coisa que se ouvia e via, era a sua condenação pública, e só à uma semana, estamos a ver e ouvir o contraditório. Mesmo assim, trata-se de uma luta desigual!
Como se não bastasse, ainda nem sequer existe acordam completo. Ou seja, a opinião pública sabe que as pessoas foram condenadas, não sabe quais são as provas. Apenas tem conhecimento que as vítimas os denunciaram, e que curiosamente as que acusaram o condenado mais mediático nunca deram a cara, para virem falar publicamente do caso.
Não estamos no tempo de comer e calar. Precisamos de informação, informação esclarecida, nem que seja contraditória. Aliás, o desejável é que tenhamos as várias versões dos factos, para que cada um em consciência possa fazer o seu juízo.
Mas infelizmente a ERC não quer isso. Eles apenas querem que o tribunal diga que foram condenados, não apresente as provas, e a opinião pública terá de comer isso, sem se questionar sobre tudo o que envolveu este processo.
Eu não quero isso, e por isso estou frontalmente contra este comunicado da Entidade que regula a comunicação social.
Sem comentários:
Enviar um comentário