quinta-feira, 9 de setembro de 2010

As mudanças no Seio da Igreja

A conferência episcopal portuguesa, vai encomendar à universidade católica, uma sondagem de opinião, aberta a todos os cidadãos, independentemente da religião que professem, com o intuito de aferir dos reais valores, aspirações e expectativas da sociedade Portuguesa.
Segundo o padre Manuel Morujão, que é o porta voz da CEP, a Igreja quer ser realista, ver o mundo e a sociedade que a envolve.
Em minha opinião, são preocupações legítimas dos responsáveis pela Igreja, embora sinta à partida que nada vai mudar, porque o que deixa transparecer, é que a preocupação fundamental dos bispos se prende com a mensagem, e não com as questões que provavelmente eles chamam de cosmética, mas que para mim, enquanto católico que está descontente com o actual rumo da Igreja, são extremamente importantes.
É verdade que a mensagem também é relevante. É preciso que a Igreja continue a ter preocupações sociais, mas também é preciso que de certa forma também entendam que para serem vistos aos olhos do mundo como uma instituição credível, à que a reformular por dentro.
Mesmo sem saber à partida quais são as perguntas que vão constar do estudo de opinião, arrisco a dizer que o mais importante para a igreja seria uma renovação profunda no seu interior. Primeiro deixar finalmente cair a aberração do celibato obrigatório. Este deve ser opcional. Não à ninguém minimamente inteligente que consiga olhar com credibilidade para um padre que de uma forma mais ou menos escondida e encoberta vai mantendo as suas relações amorosas.
Não pode haver promiscuidade. Tem de terminar essa lei preconceituosa e ultrapassada.
Segundo, permitir o sacerdócio às mulheres.
Sinceramente, eu não sei como é que as nossas irmãs, 21 séculos depois do nascimento de Jesus, continuam tão resignadas, e não se organizam com mais força para obrigar as cúpulas das Igrejas a reconhecerem-lhes também o direito ao Sacerdócio.
Qual é motivo para que ele esteja vedado às mulheres?
Não à nenhum motivo plausível. Dizem que a igreja é um mistério, e que no fundo as coisas quase que só acontecem quando têm de acontecer. Então bem que vão ficar a falar sozinhos! Não tenhamos dúvida.
Li uma altura uma declaração do Senhor Bispo de Coimbra, O Dom Albino Cleto, que afirmou que a mulher tem é de ser mais valorizada no seio da Igreja, e não ter mais poder.
Aqui é que está o problema senhor bispo! Meu caro, com todo o respeito permita-me dizer-lhe que o Sacerdócio nunca deve ser visto como poder, mas sim como missão. A grande diferença é essa. E enquanto os responsáveis não entenderem isto, nada vai mudar.
Na Igreja não pode haver poder, todos temos de estar com a missão de servir e ajudar o próximo, e não com a de ostentar um cargo. E da mesma forma que o homem pode presidir a uma celebração a mulher também pode. De uma vez por todas evoluamos, reconheçamos que até agora a mulher estava fora do sacerdócio por um erro histórico, mas que apesar de tudo vamos sempre a tempo de o corrigir. Quanto mais tarde se assumir o erro, mais tempo se persiste nele. Não pesa a consciência?
O mesmo Dom Albino Cleto afirma ainda que as mulheres devem ser o rosto de Deus no século XXI. Como isso pode acontecer, se só os párocos é que têm todos os direitos?
Manter este estado de coisas é de uma insensibilidade atroz, de um preconceitualismo repugnante, e é sobre tudo indigno para as mulheres, que se hoje já vão conseguindo gradualmente ter os mesmos direitos e aceder às mesmas coisas do que os homens, na igreja continuam a ser tratadas como seres menores, como pessoas incapazes de assumirem os destinos de uma paróquia, em suma, à que dizer que elas são tratadas ainda como eram na idade média. Não tenhamos medo das palavras!
Sob o ponto de vista teológico, à também que dizer que os casamentos canónicos hoje são uma mentira.
Não à ninguém que conscientemente, esteja em condições de jurar perante Deus que vai respeitar e manter a relação até ao final da sua vida. Quem o fizer será hipócrita. Não estou a dizer que não consegue. Obviamente quando se inicia um relacionamento, a ideia é que ele perdure durante muitos anos, se possível até ao final da vida. Mas jurar-se logo quando se inicia a relação, que estaremos em condições de a manter, nem que ambos vivam mais 60 ou 70 anos, não é possível, porque à factores que dificilmente se contornam.
Como tal, o matrimónio deve ser revisto, para que se ajuste mais à realidade dos nossos dias.
Também é imperioso terminar com essa vergonha que é o negócio, chorudo por sinal, das missas pelas intenções dos já falecidos.
Em nome da nossa inteligência.
Todos sabem que isso é uma treta. Os próprios Párocos têm plena consciência que as coisas nunca poderiam funcionar assim.
Uma pessoa falecida que tivesse pouca família, e poucos recursos económicos, não teria possibilidade de mandar celebrar tantas missas, como uma pessoa importante, que tivesse um grupo de familiares e amigos abastados economicamente. Neste caso até depois da morte, o pobre seria prejudicado, porque demorava mais tempo a ir para o céu do que o Rico que tinha missas em quantidade industrial.
Sejamos sérios. Já não estamos no tempo do obscurantismo mental. Vamos respeitar a nossa inteligência, e definitivamente acabar com essa pouca vergonha.
Para além de que, se trata de um negócio muito pouco sério.
Cada Padre é que decide por quantas intenções vai celebrar a missa. O mesmo é dizer que ele é que vai decidir quanto quer ganhar!
Também sou apologista que se acabe com o dinheiro nos ofertórios.
Por amor de Deus. Numa altura em que ao que parece o Deus mais adorado é o dinheiro, a igreja não pode também embarcar nessa idolatria. Vamos abolir com tudo o que se relacionar com isso. Mete-me muita impressão, ver os fiéis a depositarem as moedas no cesto do ofertório. Faz-me lembrar uma loja, ou uma feira.
À que de uma vez por todas assumir este princípio para mim fundamental.
Um pároco só deveria ter direito a um salário se não tivesse mais nenhuma actividade profissional. Caso tivesse, deveria exercer o sacerdócio em regime de voluntariado.
E mesmo o salário do Pároco deveria ser fixado pela diocese, e as contribuições dos fiéis deveriam ser também elas fixadas. A ideia era que tudo fosse o mais transparente possível.
Por exemplo na última Missa de cada mês, os fiéis dariam o que achassem por bem, sempre no final da celebração, e não na própria igreja.
Naturalmente, e dando corpo a uma atitude coerente de total transparência, no final de cada ano haveria um relatório de contas elaborado pela comissão fabriqueira.
Teologicamente falando, as missas deveriam em minha opinião ser completamente reformuladas. Infelizmente, hoje uma Missa não passa de um rito, que contêm orações muitas vezes estéreis, sem nenhuma teologia, em que os fiéis se limitam a papaguiálas porque foram ensinados assim, e embora nem sequer saibam o que significam as orações, continuam a matraquiálas como máquinas devidamente formatadas para isso.
É algo que a mim me deixa muito triste. Porque as pessoas têm uma fé nada esclarecida, e ficam castradas, sem capacidade de desenvolverem um raciocínio crítico, e isso depois transporta-se para o resto da vida, o que faz com que sejam pessoas amorfas, com pouca participação cívica, e deixam que sejam os caciques a decidirem por si.
A missa tem de ser um veículo de alegria, não de tristeza. À muito tempo que não cumpro o preceito dominical. Confesso que era sempre a mesma coisa. O calendário litúrgico era lançado no início do ano católico, e de ano para ano ele nunca mudava.
Depois aquilo que realmente apoquenta as pessoas no seu dia a dia, parece que é completamente esquecido nas Missas. Apenas se reza, sem se saber muito bem o significado daquilo, pessoas regra geral tristes, abatidas, sem alegria e vontade para virem cá para fora completamente renovadas espiritualmente, prontas para a luta do dia a dia.
Não tenho dúvida em afirmar que muita gente que todos os Domingos frequenta as Missas, o faz mais com aquela ideia de cumprir uma obrigação, quando o que deveria acontecer é que as pessoas tivessem prazer em irem à igreja, que as missas fossem uma festa, não com aquele espalhafato de alguns padres de origem Brasileira, nada disso, mas onde se debatesse, onde se esclarecesse, falassem de problemas que realmente interessam ao dia a dia das pessoas.
Que a oração fosse reduzida, muito reduzida, e que as pessoas sentissem que em cada Domingo, iam vivenciar experiências diferentes, iriam aproveitá-las para as tentarem pôr em prática no dia a dia.
Sonho com as igrejas em festa, onde pudesse haver partilha de experiências, de sonhos, de expectativas.
Por outro lado a Igreja tem que de uma vez por todas, possibilitar aos fiéis terem uma fé esclarecida. E uma coisa que deve ser feita é saber separar as mensagens e os factos que foram reais, e aqueles que são mitológicos.
Ainda temos muitos católicos que acreditam mesmo que o cadáver de Jesus foi mesmo reanimado, e não entendem que todo esse relato da ressurreição é obviamente mítico, e foi feito com a intenção de fazer passar determinadas mensagens, mas que historicamente não aconteceu.
À que elucidar as pessoas, e não as manter no infantilismo.
Hoje a nossa sociedade cada vez está mais e melhor informada, hoje já não são só os párocos aqueles que dão informações e ensinamentos às pessoas, e temos de dançar e cantar com esse facto, porque é uma revolução absolutamente extraordinária. Mas a Igreja tem de estar à altura destas responsabilidades, e começar a falar de uma forma clara, que toda a gente entenda, possibilitando assim às pessoas terem uma fé centrada no essencial e não no acessório.
Quando uma pessoa acredita piamente que Jesus foi um super-homem que até teve o dom de conseguir reanimar o seu cadáver, depois de ter sido morto, são pessoas que não percebem a mensagem fundamental de Jesus e nem sequer vão conseguir absorver nada da mensagem fundamental da Páscoa.
Quando as pessoas acreditam em todos esses milagres que a bíblia diz que Jesus realizou, e se a Igreja não disser claramente que os milagres que foram relatados não aconteceram historicamente, mas que foram narrados em determinado contexto e para fazer passar certo tipo de mensagens a irmãos e irmãs que à dois mil anos atrás nem sabiam ler nem escrever, e que por isso precisavam de relatos absolutamente espectaculares para acreditarem na mensagem, estamos a fazer com que mesmo hoje, com toda a informação existente, os fiéis acreditem piamente nesses milagres, e fiquem sem entender o alcance da mensagem principal.
E assim, ficam incessantemente a orar para que Jesus possa fazer por eles aquilo que cada um de nós devia fazer.
Esta é a mensagem principal. Temos de ser nós os protagonistas da nossa história. Não podemos ficar de braços cruzados à espera que nos resolvam os problemas!
Por outro lado, e já que a ideia essencial da conferência Episcopal passa por saber de que forma a sociedade pretende que a igreja actue, penso que ela deverá ter um papel muito mais político e activo. Esta ideia que os responsáveis da Igreja devem estar metidos nos templos a rezar, e que apenas se devem dedicar às questões espirituais, está em minha opinião perfeitamente errada.
A Igreja tem de tomar partido pelos mais desfavorecidos, pelos pobres, pelos marginalizados, foi assim que Jesus fez, Jesus andou em constantes duelos contra os poderosos do seu tempo. Foi altamente radical, e é assim que os homens e mulheres dos dias de hoje devem ser. Não basta ostentar o nome de Jesus, e referir que ele é o Deus da religião católica. Se fazemos de Jesus o nosso Deus, e depois não seguimos as suas práticas, estamos a fazer de Jesus um ídolo, alguém distante, que apenas serve para adorar nas horas e locais previamente determinados, e isso é um Jesus que não interessa a ninguém, e que não ajuda o ser humano a crescer, passando assim a ser um estorvo, ou seja, um tropeço.
Não estou a defender que os responsáveis pela Igreja se metam na vida política, vulgo nos partidos. Nada disso! O que eu defendo é que a igreja deve tomar partido, e sempre que entender que os mais desfavorecidos estão a ser prejudicados pelo poder político deve dizê-lo clara e abertamente.
Mas o que temos visto? Nos chamados assuntos fracturantes como por exemplo o Aborto e a eutanásia, a igreja assume publicamente a sua posição. E nesta altura em que estamos em clara crise económica, em que os pobres têm sido altamente fustigados, em que ainda agora a segurança social quase que impede que aqueles que têm menos recursos, cumpram os requisitos para continuarem a ter abono, a igreja nada diz.
Não se ouvem os párocos a falarem nas homilias sobre isto, mas sobre o aborto já falaram abertamente, e tentaram influenciar as pessoas.
Para além de trazerem umas mensagens com um moralismo farisaico rançoso, condenando as mulheres que abortam, pedindo que elas vão parar à cadeia, quando ao homem que ajudou à concepção do feto nada lhe sucede. É um desperdiçar de energias perfeitamente inútil.
Eu fui um dos que na altura até compreendeu o papel da Igreja, quando veio posicionar-se contra o aborto, isto apesar de ter votado sim no referendo, mas apesar de tudo aceitava que a Igreja tomasse uma posição de acordo com os seus princípios. Tenho de reconhecer com toda a naturalidade e sinceridade que estava redondamente enganado.
Melhor fora que a Igreja não falasse sobre este assunto, e deixasse a decisão de acordo com a consciência de cada um, e se metesse até aos ossos nas questões que de certa forma, prejudicam os cidadãos nos seus direitos fundamentais.
Mas Uma vez que tomaram partido sobre este tema, era bom que depois isso tivesse consequência. Que a igreja em questões que mexem com o dia a dia das pessoas ,também tomasse posição, e ajudasse os seus fiéis a terem muito mais sentido crítico, a serem mais exigentes com quem os governa, a saberem de que forma criticar construtivamente, a perceberem as políticas que são muito prejudiciais ao quotidiano de cada um, sobre tudo de quem já vive numa situação pior, em suma, ajudá-los a serem cidadãos plenamente integrados nesta sociedade.
É verdade que a Igreja tem tido um papel preponderante na ajuda material a pessoas mais desfavorecidas. Mas eu não quero a caridadezinha. Quero é que os membros da Igreja intervenham publicamente, afrontando o poder político, que os obriguem a tomar medidas concretas para diminuir a pobreza, a criar uma sociedade mais justa e igualitária.
É isso que se pede à força da Igreja. Não se quer que a este respeito os membros sejam vasos decorativos. Não! Intervenham, ponham em causa, não se acomodem, só assim se consegue atingir os desideratos que eu acabei de frisar.
Pelo facto de as pessoas viverem amorfas, concentradas nas nossas Senhoras de Fátima e nos São bentos da porta Aberta, tudo manifestações primitivas, folclóricas, sem nenhuma fé esclarecida, nem nenhuma utilidade, é que o nosso poder político mantém subjugadas as pessoas, e enquanto o povo for sereno, tudo vai correndo sempre na mesma, com os ricos a serem cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres.
Que querem? As pessoas não se mexem! Estão mortas, paralíticas, cegas, são Lázaros, que precisam de alguém que as mandem levantar e andar novamente.
Não quero armas. Quero sim sentido crítico, sentido de responsabilidade, espírito construtivo, no fundo as nossas armas têm de ser as palavras. É assim que vamos melhorar este estado de coisas.
E quando a Igreja se transformar verdadeiramente, e começar a navegar por essas águas, então sim. Vai ser uma ajuda para as pessoas. Elas vão aprender a intervir civicamente em tudo que lhes diga respeito, deixarão de ser paus mandados dos Eclesiásticos e dos políticos, passarão a ser únicos e irrepetíveis, como todos devíamos ser.
E quando isso acontecer, estaremos todos em festa. Finalmente o projecto da criação da humanidade que Deus fez, e personificou em Jesus, o paradigma do humano, começa a ganhar corpo, tudo isto para que possamos chegar a uma altura, em que todos seremos tão livres tão livres, que imaginem, nem a Igreja já é necessária. É isso que eu espero que aconteça.
Mas se tudo continuar como está até aqui, então a Igreja infelizmente já não nos serve de muito, e é pena, porque no tempo que estamos, ao contrário de muitos amigos que pensam que esta igreja já deu o que tinha a dar, eu gostava muito que houvessem estas mudanças, e venham elas, para que a Igreja volte a ter utilidade.
No entanto, infelizmente, por mais lírico que tente ser, apesar de gostar e querer muito que a Igreja mude, não acredito nas mudanças.
Acho que esta sondagem foi apenas mais um fediver, e dramaticamente as coisas vão continuar na mesma.

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